A Reforma, a Tradução da Bíblia e o Movimento Missionário Moderno


Por Michael Gabriel

Se você vivesse há quinhentos anos e quisesse ler a Bíblia, onde a buscaria? Naquela época, inclusive na Europa, você teria problemas para encontrar a Escritura em outro idioma que não fosse o latim, um idioma conhecido somente pela elite acadêmica.

O que havia ainda mil anos antes? No século IV, partes da Bíblia hebreia grega haviam sido traduzidas a numerosos dialetos coptas no Egito e para o etíope, menos de um século mais tarde. A Bíblia também estava disponível para os falantes de siríaco, um idioma irmão do hebreu e do arameu [1]. Outros cristãos africanos que viveram durante essa era fundamental tinham que se virar sem as Escrituras em sua língua materna, uma desvantagem fatal quando o Islã chegou ao norte da África no século VII. Durante os duzentos anos seguintes, a Igreja desapareceu de maneira efetiva em toda a região, exceto em três áreas chaves: as mesmas áreas nas quais se falavam copta, etíope e siríaco. Em todo lugar onde os seguidores de Jesus podiam ler a Bíblia em seu próprio idioma, permaneceram firmes [2].

A primeira tradução da Bíblia em inglês

Foi esta a realidade que levou John Wycliffe a traduzir a Bíblia para o inglês no século XIV. Depois de tudo, a esposa tcheca de Ricardo II da Inglaterra tinha as Escrituras em seu idioma materno, mas o rei não. O trabalho se completou no final da década de 1380. Ao ser questionado nos tribunais, Wycliffe respondeu:

“Você diz que é uma heresia falar das Sagradas Escrituras em inglês. Chama a mim de herege porque traduzi a Bíblia para a língua comum das pessoas. Você sabe quem blasfema? Não é o Espírito Santo que dá a Palavra de Deus em primeiro lugar na língua materna de cada uma das nações às quais é dirigida?” [3]

Cada cópia da tradução de Wycliffe foi produzida a mão, a um custo equivalente ao salário anual de um sacerdote. Nunca esteve amplamente disponível, portanto, se comparada a outras traduções em outros lugares da Europa.

Lutero, Tyndale, a imprensa e uma explosão de tradução das Escrituras

Tudo seria diferente com a Reforma, que, em grande medida, foi beneficiada pela então recente invenção da imprensa, uma inovação que mudou a natureza dos livros para sempre. Lutero liderou o processo, produzindo uma tradução do Novo Testamento em alemão em 1522. Este foi um sucesso imenso, passando por quarenta e três edições em apenas três anos, com uma tiragem total de mais de 100.000 cópias [4].

A primeira Bíblia vernácula holandesa foi a seguinte, seguida do Novo Testamento inglês de William Tyndale, em 1526, e de uma Bíblia completa em francês em 1530. A motivação de Tyndale para estes projetos de tradução da Bíblia estava baseada em um dos objetivos centrais da Reforma, que era colocar a Bíblia nas mãos de laicos, a fim de que pudessem ler por si próprios. Ele observou [5]:

“Havia percebido, por experiência, como era impossível estabelecer qualquer verdade aos laicos, a menos que a Escritura estivesse diante de seus olhos, em sua língua materna, para que pudessem ver o processo, a ordem e o significado do texto”.

Tyndale foi executado pouco depois. Suas últimas palavras foram: “Oh, Senhor, abre os olhos do Rei da Inglaterra” [6], uma oração maravilhosamente respondida quando, apenas três anos mais tarde, o rei Henrique VIII finalmente permitiu, e inclusive financiou, a impressão de uma Bíblia em inglês, conhecida como “a Grande Bíblia“.

Depois surgiram várias traduções para o idioma inglês: a Bíblia Coverdale, a Grande Bíblia e, em 1611, a Bíblia King James, o livro mais impresso na história do mundo. Em 1600, já existiam traduções para outros idiomas europeus, tais como em italiano, catalão, sueco, dinamarquês, espanhol, polonês, eslavo, esloveno, galês e húngaro, sendo acompanhadas pelo romeno, finlandês, irlandês, letão, lituano e romanche no século seguinte.

“A tradução abre a janela para deixar entrar a luz; quebra a casca para que possamos comer o grão; põe a cortina de lado para que possamos olhar para o lugar santíssimo; remove a tampa do poço para que possamos chegar à água, como Jacó fez rodar a pedra da boca do poço, o que significou que o rebanho de Labão pode saciar sua sede” (Prefácio dos tradutores, Versão King James).

O que aconteceu com os idiomas de lugares mais distantes? Em 1663, John Eliot imprimiu a primeira Bíblia na América. Foi em algonquin, o idioma dos americanos nativos de Natick, Massachusetts. No outro lado do mundo, Albert Ruyl, um agente da companhia holandesa das Índias Orientais, foi o primeiro a traduzir as Escrituras a um idioma asiático moderno, o malaio. Sua tradução do Novo Testamento se completou em 1688, seguido por uma para o tâmil em 1715.

A idade de ouro de Tradução da Bíblia e o movimento missionário moderno

As comportas